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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Promessas, muitas promessas...

Eu prometo acordar cedo em quantos dias me for possível.

Prometo ir à academia e exercitar o corpo, que tanto clama por atividades.

Prometo colocar água nas plantas do quintal, sem falhar um dia sequer.

Prometo cozinhar mais.

Prometo lavar o carro todo o fim de semana.

Prometo estudar mais.

Prometo não rir da política nacional.

Prometo não xingar o meu irmão.

Prometo manter meu guarda-roupa e CD's organizados.

Prometo não deixar os trabalhos para a última hora.
Prometo ter mais paciência no trânsito.

Prometo abrir mão da sobremesa e ficar só com a saladinha.

Prometo não ligar para quem não liga pra mim.

Prometo não me apaixonar em final de semestre da faculdade.


Prometo, acima de tudo, não cumprir nenhuma dessas promessas, mas ser imensamente feliz nessa vida tão longa e tão curta que o Pai me deu.



Feliz 2011, moçada!!
De presente deixo abraços...










sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Sol de Natal

O que é que eu estou fazendo no computador às vésperas do Natal?!!
Bom, estou comentando no blog dos outros, estou me inspirando, estou dando um cheiro nos meus priminhos que acabaram de chegar, de explicar para minha tia-avó que eu não tenho namorado, vendo as travessas indo para a mesa, escrevendo sobre tudo isso. Eu deveria estar fazendo o quê? Meditando?

Fui na missa agora à pouco. Simples, gostosa. Cheguei em casa, o cheiro vindo do forno já tomava conta da casa. Achei que ela - a casa -  estava com um jeitão tão... natalino! As luzes, a pequena árvore de Natal, o ultrapassado pinheiro, porque eu não achei uma réplica de um piquizeiro, a música ao fundo...

Lembrei de uma cena da minha infância, em que eu ficava à noite com todas as luzes apagadas, admirando a árvore de Natal enfeitada, iluminada apenas pelos pisca-piscas. Não saberia dizer em quê pensava, mas lembro que sentia uma sensação nostálgica. Uma "saudade do futuro" que me é bastante peculiar. As sensações podem ser meras reproduções de um pós-Disney, mas de alguma forma teve significado para mim. E ainda deve ter, já que, ao escrever sobre o Natal, a cena me volta à memória.



Acho que muitas pessoas não experimentaram tal sensação. Passam incólumes por todas as sensações natalinas. Eu gostaria de me esquivar das reproduções comerciais e tenho tido muito sucesso. Há muito tempo não sinto um nada com as músicas das Lojas Americanas e nem dou bola para o Papai Noel. Aliás, hoje fui chorar um "desconto natalino" em um presente para a minha mãe e o gerente me respondeu: "Mas aí você leva a comissão do Papai Noel [o que estava gritando as ofertas do lado de fora!]" Sem o menor pudor respondi: "Hum... Eu nem gosto dele mesmo..."

Papais Noéis de todo o Brasil, parem de passar calor debaixo dessas roupas e falsas barbas!! Porque até as crianças mais pequenas já os olham desconfiados! Incitar ao sonho é fundamental no universo infantil, mas por favor com mais criatividade e respeitando a inteligência dos pequenos, sim?

Eu gosto do Natal. Ponto. Acho que, apesar do dia 25 de dezembro não ser necessariamente o aniversário de Jesus, eu não me importo em comemorá-lo neste dia! Se eu não soubesse em que dia eu nasci, logo escolheria uma data e diria: "Agora, sim! Vamos comemorar a minha vida!"

Gosto tanto porque significa muito para mim. Não gosto tanto da Páscoa, apesar de ser o evento mais importante para a religião cristã, como gosto do Natal. É que por mim, mesmo se Ele não tivesse morrido, a maneira como levou sua vida já era o suficiente para ser lembrado e seguido. Só que desse modo não haveria religião. Ele não seria considerado Filho de Deus, apenas um homem bom. Como se a bondade e a humanidade andando juntas não fosse um milagre! Por tudo isso é que o nascimento do Cristo é muito mais importante para mim.

Ele veio trazer esperança. E trouxe. E me traz todas as vezes que eu preciso. 

Fui hoje à tarde, no cair do dia, apreciar o pôr-do-sol no meu lugar favorito do meu bairro: o cemitério. Parece mais um grande jardim. Fui desejar boas-vindas ao garotinho de milênios atrás... Disse-lhe que o sol tem muito a ver com a sua majestade. Ele nasce todos os dias livrando o planeta das trevas. Meu Pai também. Da mesma forma que o pôr-do-sol é lindo porque já sei que ele voltará em algumas necessárias horas. 

Seja bem-vindo, Sol! Brilhe forte, lindo e esperançoso! Porque é assim que eu vou te admirar. 



Feliz Natal

sábado, 18 de dezembro de 2010

Momento.

Queria escrever sobre o tempo bom que tenho tido. De descobertas, de sorrisos, de confecção de boas lembranças, de gente boníssima. Mas sabe quando se sente que aquilo que está preso dentro de você ainda não está pronto para ganhar forma na vida das outras pessoas? Precisa ser cultivado, amado, pensado. De outra forma sairia como algo "regurgitado"; que deve entrar novamente, terminar de ser digerido, para aí sim ter seu momento.

POr isso é provável que o que diga aqui hoje não queira ser nada significativo. Apenas uma prévia de outros momentos em que muito faça sentido.

Me lembrei agora de dois filmes que há muito deveria ter assistido, mas não o fiz até o intervalo de tempo entre ontem e hoje, quando finalmente consegui. "Antes do amanhecer" e "Um beijo roubado". Diriam vocês que são por demais românticos e piegas? Não me atreveria nem a defendê-los de tal acusação e nem me daria o trabalho de convencer-me a concordar com a crítica.

É que, de fato, existem alguns momentos na vida em que apenas eles fazem sentido. A identificação rolando solta entre eu e as protagonistas dos filmes, isso não tenho coragem de negar! Uma, forjada nas mentes revolucionárias de maio de 1968 de seus pais, queria apenas amar e ser amada e se pergunta se, afinal, não é isso que todos procuram no fim das contas?! Talvez não amar do jeito convencional, mas ter atenção, ter carinho e cuidado de alguém, ter a necessidade de doar-se um pouquinho para outrém... A outra, decidindo partir para descobrir-se, para não correr o risco de se confundir com o outro. Como embarcar em uma jornada tão intensa sem saber quem se é? O risco seria o de, tal qual o personagem de "O cavaleiro inexistente" do Ítalo Calvino - Gurdulu - se fundir - e não apenas confundir! - mas fundir-se ao universo do outro sem a consciência de quão diferenciado você está. Quantos casais não sofrem por não saberem o quê é de quem?
(Lembra da Julia Roberts, em "Noiva em fuga"? Ela sequer sabia como gostava dos ovos!) Bem, a personagem de Norah Jones teve a sabedoria de partir. E foi feliz ao descobrir que quanto mais caminhava e conhecia as pessoas, mais gostava de quem descobria que era.

Acredito mesmo que este momento da vida seja aquele em que eu tenha que parar para pensar. Minha idéia de ir nas férias para um mosteiro ainda está de pé. Talvez eu precise disso para encarar 2011 da melhor forma possível. Quem sabe não está se aproximando o momento em que eu saiba como é que eu gosto dos ovos, de que músicas eu gosto e saber que podem ser momentâneas ou perenes, de que lugares eu gostaria de conhecer e saber que ainda há espaço para "confundir-me" com o outro. Mas só um pouquinho.

Ei! Pensando bem... Eu gosto de ovos mexidos na manteiga ou no azeite. Gosto de MPB, samba, rock e modas sertanejas bem antigas. Jazz e blues, em alguns dias e de repente o fado de Antonio Zambujo.  Quero conhecer Florianópolis, Natal, Gramado, Buenos Aires, Machu Pichu, voltar ao México, explorar a Europa, entre tantos outros lugares - tantos que dá até preguiça de escrever.

Ei! Pensando bem... Acho que o momento chegou! Seja bem-vindo!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Tristeza, por favor vá embora...

Dias tristes existem. E eles não precisam, necessariamente, ser desencadeados por algo específico. Sãos dias apáticos, sem sol, sem chuva, sem brilho, sem cheiro de terra molhada. São dias de arrependimentos, são dias de desamparo. Dias em que tudo o que se quer é que ele chegue logo ao fim, na esperança de que o próximo será sempre melhor. E se o dia melhor não vier? E se já tivermos perdido a possibilidade de sermos felizes, ainda que nos digam que isso é improvável?

Dias assim são dias sem amores. Dias de perjúrio. Dias de mentira.
Estou escutando músicas que, em outros dias me fariam bem, mas hoje só presto atenção nas letras tristes e mesmo que o ritmo acolhedor do samba esteja presente, ele só consegue me abraçar como quem diz: "Seja bem-vinda. Aqui é permitido chorar."
Não é nenhum desolamento. Não tive uma grande perda recente. Apenas acordei sentindo que estou vulnerável à dureza da vida e que minha proteção habitual não está comigo hoje. Dias de perigo. Dias de desamparo. O desamparo do bebê que chora sem ser atendido.
Dias em que as lágrimas brotam sem motivo. Mas eu tenho dias em que a alegria me chega sem aviso prévio do mesmo modo que a tristeza me chegou hoje. Devo não ter sido grata o suficiente.

Acho que o jeito é esperar. Porque os dias de alegria súbita acabam. Esses dias de tristeza devem passar também. HOje o cheiro é de cansaço e de pele molhada.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Cheiro de terra, cheiro de humor, cheiro de momentos, cheiros...




Você já deve ter sentido isso. Qualquer um que tenha o olfato minimamente preservado já sentiu algo parecido antes. São os cheiros. Esse poder, essa magia que nos penetra de forma invasiva (ou não) e que não podemos impedir sua entrada. Quando menos se espera, nós já estamos em contato. 
É como acordar com cheiro de café. Cheiro de pão fresco.


É dormir sentindo um perfume de roupa de cama limpa ou de cheiro de banho do companheiro ao lado. Cheiros sutis... Desses que por vezes nem tomamos conhecimento de que nós os percebemos, a menos que sintamos sua falta. 
Sei de um perfume, registrado em minha memória como o cheiro da tia Helena, que não partilha mais desse plano conosco. E eu nunca tinha me dado conta do cheiro dela, até que ela se foi. 




Cheiro de pessoas específicas. Cheiro de mãe, cheiro de pai, de irmão, de amigo.
Cheiro de amores....
Cheiros que trazem saudades. Que podem trazer também as lágrimas....





Cheiros que me gostam muito: cheiro de terra molhada, cheiro de cabela lavado, cheiro de chá, cheiro de travesseiro de fronha trocada, cheiro de colo, cheiro de uma linda noite, cheiro de amor. Cheiro de laranja, cheiro de uma plantinha que tem na frente da casa do Léo, que eu acho que é dama-da-noite, cheiro de jasmim, a única flor da qual me agrada o perfume. Cheiros de recordações. Cheiro de livro novo, cheiro de gasolina - não me pergunte porquê! - cheiro de pão de queijo, cheiro de bebê.

Belos cheiros. Sim, porquê eles são sinestésicos. E há quem diga que pode vê-los! Não duvido, sei que existe e sei que dos transtornos que se pode ter, esse é um dos que julgo mais poético...

Há cheiros menos queridos, como cheiro de cachorro molhado, que às vezes nem vem do pobrezinho!
Cheiro de prisão. Cheiro de hospital. Cheiro daqueles manicômios - os que tanto tentamos extinguir. Há quem diga que são cheiros agradáveis a alguém, de tão familiares que se tornam. A mim me lembra cheiro de urina. Não acho legal, mas denunciam um problema e é, das formas de intervenção, a que mais marca. Aquela que impregna o nariz e a memória. Aquela que, inacreditavelmente, não há como conter! Cheiro de doença, cheiro de suor, cheiro de mau humor. 

Sejam eles bons ou ruins, o fato é que os cheiros, apesar de esquecidos por nossa razão, está intrinsecamente relacionada aos nossos processos inconscientes. Essa afirmação não tem validade científica, por isso não transcrevam nada disso em um documento oficial. No entanto, reflitam comigo. É mais comum ouvir alguém dizer: "Essa música me lembra ...", "Essa imagem, essa cor, me lembra..." Mas é mais difícil ver alguém dizendo "Esse cheiro me lembra...". Não é impossível, é incomum. A alguns vem mais forte que pra outros, mas essa é só mais uma possibilidade de ser e estar no mundo, nesse mundo cheio de sons, imagens e cheiros. Não odores. Cheiros.

Fica a dica: prestem atenção nos cheiros. Porque, sendo mais sutis, podem ser também mais reveladores...


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Sobre "Tropa de Elite 2"




Tropa de Elite 2 saiu e eu vi. Na minha opinião, bem melhor que o primeiro. Mais preocupado, eu diria, com a responsabilidade pela comoção que gerou. No primeiro filme, eu quase era linchada quando dizia que discordava da postura do BOPE e que ficava preocupada em ver como a população em peso aderiu a moda da "tropa osso duro de roer" e de como algumas corporações a internalizaram.

Fazer um filme, uma música, uma tela é muito mais do que "fazer arte". A arte tem a capacidade de inflamar multidões, de criar novos conceitos, de instalar medos, de transformar mentes. Os "arteiros" todos têm enorme responsabilidade em suas mãos e é por isso que acredito que os produtores do segundo filme da série tenham percebido tamanha responsabilidade ao mudar de foco. Agora não basta entrar arrasando na favela. É preciso pensar em política pública. É preciso pensar na segurança de muita gente e na sua também.

A atuação brilhante de Wagner Moura mais uma vez rouba a cena e faz com que muitos brasileiros se reconheçam em sua dor, em sua angústia e em sua ira. Arrisco-me a dizer que, em um cinema lotado, não houve sequer um homem ou uma mulher que não se sentisse vingado em alguns momentos do filme ou que não sentisse o gozo pela queda do outro. E me incluo aqui.

Quem acompanha este blog já deve desconfiar de qual seja a minha postura perante a humanidade, mas confesso que deixei todas as minhas crenças cristãs e políticas de lado para dar lugar à pulsão de morte que há em mim quando o assunto é injustiça. E quando há política e polícia envolvidas nisso... a ira toma conta de mim. 

E foi isso que vi refletido em muitos dos que assistiram ao filme junto comigo: o gozo por ver um poderoso de alto escalão sendo chutado por tamanha covardia e mau caráter que o pertencia. Ñão posso negar. Apesar de não achar que a violência resolva muita coisa, eu sei que ela "soluciona" uma: faz com que nosso ódio tenha lugar, nem que seja no cinema, por um personagem fictício (ou não tão fictício assim...)

Mas o problema da pulsão é que, uma vez extravasada, essa energia volta ao seu estado habitual. É como um orgasmo: tem um pico e retorna ao cotidiano. E as pessoas conseguem então, ao acenderem as luzes, se levantarem, tomar uma cerveja e ir pra casa. Muito bem, obrigada.

No entanto, algumas mentes inquietas fazem jus à responsabilidade da arte e saem com vontade de tentar fazer diferente. Muitas não conseguirão, penso eu. Mas outras farão algo pelos que estão mais próximos de maneira muito real. Não tentarão limpar as favelas dos traficantes, não pensam em acabar com o tráfico de drogas e, o mais difícil de tudo, livrar o país da corrupção, essa maldita lepra que corroe os nossos bolsos e nossas vidas e que são parte de nossa política. De modo bastante real, se colocarão à serviço da comunidade com o que puderem. Liderarão um time de futebol na escola do bairro, ensinarão teatro e música para a moçada interessada, ajudarão com aulas de reforço de matemática, montarão grupos de terapia comunitária, farão oficinas de como escrever um currículo, onde encontrar cursos profissionalizantes, montarão cursinhos pré-vestibulares, ou ainda, sentarão na praça para ouvir o que os jovens tem a dizer. Sobre o que pensam do futuro, qual é o seu projeto de vida, qual a história de cada sujeito, cuja vida passa despercebida aos olhos de todos, às vezes até dos seus próprios...

Não vim escrever uma crítica ao filme, no final das contas. Vim pra dizer a todos os que assistiram e ficaram com a mesma sensação que eu, que não puderam simplesmente se levantar da poltrona como se tivessem desembarcado novamente em seu mundinho depois de uma viagem sinistra, que não deixe que essa sensação passe pela sua vida sem frutos. Que não seja apenas um momento de explosão da sua pulsão de morte. Se não quiser fazer nada parecido com o que eu propus acima, ajudaria muito se você ficasse atento às movimentações políticas da sua cidade, do seu estado e de seu país. Por que, por mais que você não tenha votado no candidato que ganhou, ainda é sua responsabilidade ficar de olho no que ele faz com o seu e com o meu dinheiro. Com a sua e com a minha vida.

Capitão Nascimento teve que se tornar Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro para perceber que o buraco é mais embaixo. Que não se resolve tudo subindo na favela e matando todos os bandidos. O que nós precisaremos para tomarmos como nossa a responsabilidade de cuidar do que é nosso por direito?


domingo, 17 de outubro de 2010

A carta



Não era esperada.
Ela chegou assim, de repente, como uma borboleta pequena que pousa na janela. Na verdade, eu estava na varanda, balançando em minha rede como há muito não fazia. Quando dei por mim, aquele moço de amarelo em sua bicicleta e do olhar escondido pelos óculos escuros, sem me dizer muita coisa, me entrega uma carta.

De quem? Não me atreveria a dizer. Uma letra alongada e de traços firmes e seguros, escrevera meu nome num envelope.

A carta falaria de boas novas? De tragédias? De sorte, como um bilhete premiado? De azar, como uma multa de trânsito? Não. Quem quer que tenha escrito, me queria falar de maneira informal. Aquela letra dizia que o que iria ser dito necessitava de aconchego e beleza.

Estava selada pela cola branca e seu envelope era pardo. Pardo como um envelope velho que viajara por muito tempo. Não diria que estava ansiosa. A ansiedade necessita de um tempo para ser cultivada, na espera por algo. Essa ocasião foi tão surpreendente que tudo o que me restava era a curiosidade.

A carta fora escrita pela mesma letra caprichada. Seu autor não tinha pressa. Fora delicado do começo ao fim. Seu início causava certo estranhamento e, ao mesmo tempo, aumentava minha sede em desvenda-la. Pois apenas dizia: "Ainda com pressa?"

Nem eu saberia dizer de que pressa se tratava! Eu não tenho pressa...

A pessoa me escrevera sobre o presente, de uma maneira extremamente intrigante. Parecia ver coisas tão óbvias, mas tão perdidas sob o nosso olhar desleixado, cotidiano. Me questionava sobre meu voto da primavera passada e me dizia que a escolha nacional não tinha tinha tido sucesso. Mas que teríamos a oportunidade de transformar a realidade de nosso erro. Logo mais.

Falava de trabalho e de como todos havíamos nos enganado ao achar que ele era mais valioso do que as outras partes da vida. Me pergunta, parecendo muito chateado e neste ponto o traço ficava mais fino, como se ele perdesse força, como pudemos olvidar o real papel do dinheiro e do emprego. Pergunta às mulheres modernas se se lembram do momento em que o pai de seus filhos tornou-se o trabalho e se elas eram realmente felizes. Perguntava aos homens se lhes vinha à memória o momento em que destruição tinha se transformado em vantagem.

Mas me perguntava, pessoalmente, o quê eu andava fazendo...

"Como assim?" - pensei. Eu ando fazendo algumas coisas... Estudando, investigando, mirando, escrevendo, tocando, vasculhando... Uma vida infinita de gerúndios. Poderia "gerundiar" (para o pavor de muitos) o dia inteiro.

Mas a carta me questionava para além. Ela me cutucava com perguntas sem respostas, me perguntava o que eu achava da vida e das pessoas, o que eu faria do meu trabalho, que nome eu daria aos meus futuros filhos, onde eu iria morar, que carro eu teria ou não, o que comeria pela manhã... Um bilhão de perguntas incompreensíveis!
No último parágrafo, senti como se um desconhecido me olhasse perturbadoramente nos olhos, quando li: "São todas perguntas que você se faz."

Assustada com a veracidade daquela frase, neuroticamente, me perguntei como um desconhecido poderia saber aquilo, justamente aquilo! Que não compartilho com ninguém!

Mais embaixo, as palavras que me esbotearam com luvas de pelica. As perguntas certas não deveriam ser essas, mas aquelas que me perguntassem o que eu poderia fazer agora. Quem eu era agora.

Parei de me perguntar. Parei só pra pensar. E num cantinho quase escondido da página vi uma assinatura pequena, como só ela poderia ser. E num cantinho quase escondido da página, lia-se:                     Vida.   

  

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Veja bem, meu bem...

Psiu...

Veja bem, meu bem... Sinto te informar que arranjei alguém pra me confortar.


Este alguém está quando você sai e eu só posso crer, pois sem ter você nestes braços tais.



Veja bem, amor. Onde está você? Somos no papel, mas não no viver.


Viajar sem mim, me deixar assim. Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins.




Enquanto isso, navegando vou sem paz. Sem ter um porto, quase morto, sem um cais.

E eu nunca vou te esquecer amor, mas a solidão deixa o coração neste leva e traz.



Veja bem além destes fatos vis. Saiba, traições são bem mais sutis. Se eu te troquei não foi por maldade.


Amor, veja bem, arranjei alguém chamado... "Saudade".







terça-feira, 5 de outubro de 2010

Anulei meu voto.

Eu anulei um dos votos a que tinha direito no último domingo.

Apesar de ser comum para algumas pessoas, eu não tenho preferência por esta opção. Prefiro saber que participei das decisões que dariam rumo melhor ou pior ao país. Mas me vi obrigada a anular um de meus votos ( e poderia até ter anulado mais), por não achar candidato algum que considerasse merecer meu voto.

Não cumpri minhas obrigações políticas, eu admito. Mas na hora H, quando me sentei para pesquisar e juntar o que já havia conversado com algumas outras pessoas, parei, angustiada.

O número de candidatos não era pequeno, mas eu não consegui escolher e decidi anular esse direito.
É, mas considero que também é meu direito dizer que ninguém pareceu merecer meu voto e achei que seria tão injusto se eu concedesse esse poder que tinha em mãos a qualquer um!

Uma sensação de responsabilidade foi o que me fez votar nulamente.

Protesto? Talvez. Frustração? Com certeza...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010




   Stand by...

Isso e Aquilo. Confusão.

Lembrei de Cecília.




"Ou se tem chuva e não se tem sol. Ou se tem sol e não se tem chuva!





Ou se calça a luva e não se põe o anel. Ou se põe o anel e não se calça a luva.
Quem sobe nos ares não fica no chão. Quem fica no chão, não sobe nos ares."

Humpf! Esses poemas infantis que, de infantis, nada têm...

No mundo, as coisas seguem essa lógica, de fato. Ainda não evoluímos ao ponto de estarmos carnalmente em dois lugares ao mesmo tempo. Porém, virtualmente... Pobres de nós, não podemos ter tudo, porém "querer" tudo, isso já fazemos desde que o mundo é mundo. Em algumas épocas com mais afinco, outras não. Mas sempre irá existir Alexandres, sempre Grandes, querendo que o mundo se submeta ao seu comando único e exclusivo.

Eu nem tenho ido tão longe. Não quero sequer, dominar a minha rua! Mas há alguém que eu gostaria de dominar. Queria controlar cada passo, cada movimento, cada pensamento, racional ou irracional, dessa pessoa. Mas, definitivamente, quero controlar seus desejos. A pessoa? Eu mesma.

Porque se o poema não tivesse sido escrito pela Cecília, mas por mim, ele não seria "Ou isto ou aquilo". O poema imortal teria o título de "Isto e Aquilo"! Porque eu não sei escolher. Quero tudo. Não quero ter que decidir entre as coisas e pessoas que eu amo. Entre os meus sonhos e os delas.

Talvez provenha daí essa confusão toda. Quando se quer isso e aquilo a harmonia se perde, porque a natureza faz escolhas, às vezes muito duras, porém as fazem. E eu, na ganância de não querer apenas uma, mas ambas, fico perdida. 

No fundo não sei se deveria chamar ganância... Talvez melhor seria se chamasse ignorância. Ou insegurança. Porque a grande dor da escolha é não saber se você seria mais feliz, caso tivesse escolhido a outra opção. 
É ter que lidar com a incerteza de fazer um belo chute. E torcer para que tenha sido o melhor que pudesse ter feito.

E não devo esquecer da pitada de ansiedade... O que faz com que haja tanto receio assim em escolher?

A confusão de sentimentos, de pensamentos, tem aquele poder de imobilização. Mas dessa vez, nem considero que isso seja assim tão ruim. Afinal, é preciso dar um tempo. Parar para olhar de longe. Como um terceiro que consegue manter uma distância suficientemente grande para enxergar o caos e, talvez, encontrar a sua fonte geradora.

Uma pausa para o café.

Uma pausa para tentar encontrar soluções.

Uma pausa para pensar nas opções.

Uma pausa para respirar profundamente, antes de escolher.

Afinal, é preciso entender que, nesse mundo em que vivemos e no qual tentamos sobreviver, é necessário escolher ou isso ou aquilo.



Cecília de Meirelles sabiamente já vinha introduzindo crianças de toda uma geração numa questão crucial de suas vidas, para as quais se sentiriam angustiadas, incompetentes e paralizadas. E no final nos deixa com a questão nas mãos, pois também ela não sabia qual era melhor: isto ou aquilo...

sábado, 4 de setembro de 2010

Impressões cuiabanas da Selva de Pedra...

Coisa engraçada é estar fora de casa. Tudo fica maior ou menor, mais colorido ou mais cinzento, mais leve ou mais pesado. Mas o fato é que as proporções se modificam. Ao mesmo tempo que se tem uma sensação de liberdade (assistida, como diria um amigo), tem-se a preocupação de caber no orçamento, de não perder datas e horários e de andar por caminhos ditos seguros.

Estar em uma cidade grande, bem grande, é como... Não sei... Como tudo nessa vida talvez! Tendo benefícios e prejuízos, cabendo a cada habitante ou visitante saber o quanto vale a pena. Eu ainda estou no meio do caminho em me decidir se São Paulo é um lugar que vale a pena ou não.




Pela minha ótica, a diversidade é algo marcante nessa metrópole. Não digo nem de figurinos ou penteados, pois isso achei que veria mais. É uma diversidade de lugares e frequentadores. Eu e meus parceiros de viagem temos compartilhado muitas impressões e uma das que mais chamam a atenção é a variedade de público dos locais.



Ficamos também com a sensação de que há mais idosos em São Paulo ou eles saem mais às ruas. Provável que os dois. Nossos velhinhos cuiabanos parecem tão provincianos nesse sentido. Espero que com o tempo mude. Aliás, vai mudar, porque a minha geração ao envelhecer não passará o tempo dentro de casa, que eu sei! Invadiremos quase todos os lugares com nossos livros em baixo do braço, tomaremos nossos bons e velhos cafés, conversaremos nas praças e com certeza, iremos ao cinema.

Mais uma impressão: os paulistanos parecem mesmo muito sérios, ou distantes. Um deles não entendeu porque eu era tão desconfiada e eu não estava com muita vontade de explicar. Pra quê? Entender toda a complexidade "miladyana" em uma noite? Difícil... Mas a música do Zeca Baleiro pareceu se encaixar: "... Eu tava só, sozinho. Mais solitário que um paulistano...". Não acho que sejam solitários de presença física, mas talvez de algo de vida que eu gosto e costumo encontrar nos nordestinos, por exemplo. Mas ainda assim,a acolhida foi boa. Não vou reclamar do povo anfitrião. Não agora.

É uma cidade um pouco mais verde do que me lembrava, talvez porque eu esteja em uma área privilegiada da cidade. Mas o centro ainda me parece um formigueiro de concreto. "Gentes" por todos os lados, os níveis de limpeza caindo com o passar das horas, o sol dizendo a que veio e ladeiras que parecem invencíveis-mas são.

Enfim... Essas são apenas algumas das impressões de Sampa. A viagem ainda não acabou. Vem mais por aí. Bem mais, acredito. Espere e verás.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

I Semana de Psicologia da UFMT

... "Sexualidade e Psicologia: teoria, diversidade e gozo".

Gente, é a primeira vez que faço propaganda no blog, mas é por uma ótima causa!

Na última semana deste mês, 23 a 27 de agosto, acontecerá no Centro Cultural da UFMT a I Semana de Psicologia daUFMT. Momento histórico! E você vai poder falar pros filhos e netos: "Eu estive lá!"

Além do mais, a temática é instigante, não é?!

POr toda a história da humanidade, a sexualidade sempre incitou o interesse das pessoas.
Não foi à toa que escolhemos esse tema para a inauguração da história das Semanas de Psicologia na nossa universidade! Vai dar muito oq ue falar, vai ter muita gente pra falar e vai ter também o que experimentar!

Mais informações, comigo mesmo!

Dá uma espiadinha. Você vai gostar.

domingo, 1 de agosto de 2010

Mais uma reflexão sobre mais uma obviedade.

Ó: já entendi!

Fácil a vida não é.

Mas tudo fica um pouco mais leve e tranquilo se percebemos o que exatamente queremos dela e o que vale a pena.Tal concepção pode mudar ao longo da vida, é claro e é ótimo que seja assim, mas é preciso ter consciência de quem é a bola da vez!

Esses dias eu me dei conta, de novo, de uma obviedade! É estranho como nos últimos tempos tenho me sentido extremamente surpresa em descobrir o que achava que já sabia. Acho que tenho vivido aquele momento mágico, quando os "significados" ganham status de "sentido". Quer dizer que, apesar das coisas terem um significado compartilhado por muitos, essas mesmas coisas têm um significado único para mim, tem um sentido.

Como por exemplo, a vida. Um exemplo simples - mas não simplório.

O significado da vida pode ser bem biologicão, em que a dividimos em ciclos bem definidos: um período em que nascemos, crescemos, nos reproduzimos e morremos.

Há aquele mais simplista: intervalo de tempo entre o nascer e o morrer.


Mas, de fato, os poéticos me agradam mais. Nós crescemos tão envolvidos nessa trama, que às vezes nos é muito custoso compreendê-la de verdade. Uma rede em que nossas vidas vão tomando rumos que não escolhemos. Bom, na verdade, escolhemos. Não muito conscientes dessa escolha, na maioria das vezes, mas toda decisão influencia nossa vida.

Fazer faculdade, procurar um emprego ou fazer faculdade e procurar um emprego?
Casar, viajar o mundo ou fazer uma pós-graduação? Ou tudo de uma vez?
Morar no Rio ou em Salvador?
Abrir uma consultoria ou virar cantor de reggae?
Torcer para o Palmeiras ou para o Botafogo?

Toda decisão constará como uma linha em uma das páginas da história da sua vida.
Cada decisão muda o rumo da história. Qualifica outro personagem. Tece a rede com um colorido diferente.

A obviedade que me pegou de surpresa e que começa a ter um sentido, não mais um significado apenas, é que de tão importantes, essas decisões acabam ocupando uma parte muito grande de nossas preocupações, nosso tempo e de nossa energia também. Pecamos, na maioria das vezes, na escolha do foco da preocupação. 

Penso que vive melhor quem escolhe um bom fio condutor para guiar essas decisões. Uma boa estrutura. Você pode escrever uma boa dissertação, uma boa carta, uma boa fábula. E qualquer uma delas poderá contar muito bem a sua história. Mas escolha uma dessas estruturas! 

A estrutura escolhida por mim é a felicidade. Lógico! Toda e qualquer página da minha história tem que ter o mesmo fim. Se inicio um namoro ou se o termino, se continuo a faculdade ou a tranco, se tento um mestrado longe de casa ou me caso, se faço musculação ou ballet, tudo isso tem que ter um único fim: minha felicidade. 

E a justificativa vem em forma de jargão: a vida é muito curta. (Aliás, minha postura perante os jargões é muito gentil: se eles existem é porque muita gente achou que eles eram perfeitos para expressar o que sentiam ou queriam. Às vezes por falta de criatividade, mas enfim... ) E esse é o jargão da vez! 

Imagino que às vezes as discussões metafísicas são tão inúteis e olha que eu gosto de uma boa conversa metafísica! Os filósofos e demais pensadores que me desculpem, mas se as borboletas ou qualquer outro inseto da família dos efemerópteros, que chegam a ter apenas 24 horas de vida, parassem para pensar em como a vida é injusta com elas, perderiam sua vida toda - literalmente - sem aproveitar o que afinal ela teria de bom, apesar das agruras de sua passagem pela Terra.

Por favor, não pensem que eu defendo a ignorância. Sou uma garota beeeeem pós-Iluminismo. Já passei da fase das trevas. Mas gostaria de dizer aos leitores que se a vida tem um lado ruim, chatinho, injusto, vamos fazer o possível para melhorá-la. Vamos tentar entender a teia. Mas não se esqueça de olhar para a beleza da teia enquanto tenta achar uma boa saída. Porque você pode não ter muito tempo para vê-la depois. 

Por isso, não ter rios de dinheiro já não me incomoda, não ter o rosto perfeito de capa de revista também não, não ter as pernas da Ivete (droga...), também não é tão importante. Porque eu sei que no final das contas, mais vale um membro da classe média que conseguiu realizar seu mochilão, do que poder comprar um carro lindo que não cabe seus amigos!

Gente, meu texto hoje está bem auto-ajuda, mas a vida é simples a esse ponto. E eu fui escolher a profissão que mais se preocupa em ajudar as pessoas a entenderem sua simples complexidade. 


E sabe o que é mais bacana? O que me faz feliz, pode não fazer você feliz. E assim, conviver com você traz um colorido diferente para a minha vida. E mais: fazer alguém feliz, pode querer dizer fazer por ela algo que não te faria feliz, mas a faz. 

Então este texto vai ficando assim, por que eu escolhi escrevê-lo e escolhi essas palavras e essa linha condutora. Tentei escrevê-lo ontem, mas ele não estava me deixando feliz. Hoje sim.

Se fosse escolher palavras-chave:

VIDA   SIMPLICIDADE  COMPLEXIDADE  FELICIDADE   OBVIEDADE



Concorda?

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Quero fôlego!

Às vezes o corpo cansa. As costas reclamam, os joelhos reclamam, a cabeça reclama.
Às vezes a alma se cansa. E parece que quando isso acontece, é de uma vez.

Hoje estou de alma cansada.

Cansada de não corresponder nem aos meus anseios, nem aos dos outros - maldito muro!
Cansada de fazer tudo errado, me arrepender e repetir o erro.
Cansada de um mundo que eu não entendo e que não conheço
Cansada de não caminhar - e não aprender.
Cansada de abrir os olhos e não enxergar nada, além de uma cena borrada.
Cansada de falar e não dizer.
Cansada de olhar e não ver.
Cansada de cantar e não gostar.
Cansada de amanhecer os mesmos dias.
Cansada de gostar e não amar.
Cansada de esperar e esperar.
Cansada de viver um assustador futuro e um medroso presente.
Cansada de não ter histórias para contar.
Cansada de ensaios.


Acho que já me fiz entender. Estou cansada.

Não da vida. Perdoe-me se foi o que pareceu.

Cansada disso que não chamo nem vida, nem morte. É o muro. É dele que estou cansada. 

Ando precisando é de fôlego! É de gana!

Alguém me arranja uma dose? Não muito cara, por favor. Meus recursos não me permitem muito. Não hoje. Talvez amanhã. Mas só depois do fôlego.

domingo, 25 de julho de 2010

Eu vi uma linda união!


Hoje vim falar de um ritual muito antigo que ocorre entre os católicos e que tive a experiência de presenciar no último final de semana: o casamento. Não. Vim falar mais que isso. Vim falar de amor - mais uma vez. E, sim, vou falar de casamento e amor, mesmo não esquecendo da questão antropológica da coisa.

No último sábado presenciei a união matrimonial de dois amigos queridos. E, como há muito não conseguia, vi enfim uma celebração transbordante de verdade, genuíno e, se a palavra não soasse tão grotesca, poderia dizer até mesmo visceral. Há muito não vou em um casamento em que eu consiga olhar para um casal e saber que eles se importam, verdadeiramente, um com o outro. Que é mais importante a bênção recebida, que a festa que os aguarda. Que fosse realmente importante reunir a família inteira de ambas para agradecer por tudo o que fizeram por eles.

Para muitos a  celebração do casamento é só mais um passo dentro da tradição. As belas noivas se preocupam com seus vestidos e penteados, com a roupa da porta-aliança e com os enfeites da Igreja. Se sobra tempo, quem sabe pode lhes passar pela cabeça que talvez o dia de seu casamento seja memorável pelo seu significado e não pela pompa. Não que a amiga-noiva não tenha se preocupado, pois ela estava linda, mais do que todo o resto. Mas dava para sentir no ar, nos olhares, nos sorrisos, nos suspiros e nas lágrimas que aquele momento era mais que memorável por si só.

É claro que, chatinha como estou ficando a cada dia, não pude deixar de reparar no discurso do bispo em prol da união entre HOMEM e MULHER, como Deus e a Natureza conceberam. A homofobia estava disfarçada de heterofilia. Não acredito que um dia a Igreja Católica abrirá qualquer brecha para a legalização do casamento gay, mas também não precisa dar início a uma campanha contra!

Se ele me perguntasse, diria que havia coisas muito mais importantes a serem abordadas naquela homilia, além daqueles minutos de "Guia do recém-casado".

Eu diria a eles que se perguntassem o motivo pelo qual estavam se casando. Porquê as pessoas se casam? Só para cumprir o formulário? Será esse o caso de vocês? E eles teriam certeza que não.

Eu citaria uma fala do filme "Dança comigo?": as pessoas se casam porque querem uma testemunha para a sua vida. Alguém que lhe diga que sua vida não passou despercebida, pois ela estava lá, participando de todas as suas conquistas.

Alguém que no final da vida segure a sua mão e diga: "Valeu, minha garota! Valeu cada minuto..."

Alguém que te leve a ser o melhor que você pode ser. Taí! Acho que o amor verdadeiro (ou o mais próximo que se pode chegar disso) tem, necessariamente, essa capacidade: de nos tornar o melhor que nós podemos ser, porque queremos ser o melhor para ela e para nós mesmos.

Alguém que saiba perdoar nossos defeitos e que nos fará exercitar nossa habilidade em perdoar também.

Alguém que seja parceiro, alguém que você tem a certeza de que pode contar com ela.

Estou sendo muito utópica? Talvez. Mas eu sei que esse jovem casal tem o meu aval. Se daqui há alguns bons anos me perguntarem, eu direi que presenciei uma união sincera, sustentada com aquilo que gosto de chamar de amor.  

Parabéns, casal!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um conto sobre vinte anos, chocolate e velho amor

Uma tarde de agosto. Era inverno no hemisfério sul do mundo, uma senhora de cabelos bem brancos, calças de algodão tingidas de azul e blusa branca bem leve e confortável, preparava um doce chocolate quente. O bastante para três.

Tinha uma expressão leve no rosto, mas de alguma forma era possível perceber o ar de satisfação. Faltavam apenas poucos minutos para a chegada da visita, se esta não se atrasasse. 

Quanto tempo havia passado desde aquele dia... O último em que se lembra de ter visto aquele homem. Lembra-se como se a cena houvesse se passado no dia anterior: uma praça com tulipas vermelhas, rosas e brancas, um mar em degradê, brisa fresca abraçando o corpo e uma espera. Ao longe, avista o homem no auge de seus trinta anos, caminhando ao seu encontro. Ele senta ao seu lado, pega em sua mão, sorri e a olha de maneira profunda como nunca antes havia feito. Ela não sabia. Seria a última vez em muitos anos.


Vinte anos depois, numa manhã de calor, o carteiro deixa em sua porta uma carta com aquela letra confundível: letra de homem. Uma carta profunda que contava dos acontecimentos mais relevantes desses vinte anos distantes: seu casamento, suas conquistas profissionais, o nascimento de sua filha. Almejava um encontro. Em nome nos velhos tempos. E levaria companhia.


O que se pode pensar de um amor que foi embora? Que simplesmente se foi e que reaparece vinte anos depois querendo mostrar-se diante de você? Não importa o que fariam as outras pessoas, ela o receberia. Afinal era um amor, dos mais belos que atravessou sua vida. Não o maior - teve a felicidade de se casar com aquele que acompanhou quinze anos de sua vida e que se foi em virtude de um grave acidente (que de virtuoso não tinha nada...). Mas era ainda um belo amor, que deixou marcas e saudade.


Tentava se lembrar da história. O começo, o meio e o não-fim. Depois de vinte anos, só ficaram as boas lembranças. A única que havia sido ruim teve fim com o envio desta carta: agora, sim, poderíamos ter um fim verdadeiro, concreto para esta história. Finalmente ela saberia o que aconteceu. Ou não.


Batidas à porta. Um homem por volta de seus cinquenta anos de porte fidalgo e com cabelo despenteado, como sempre o teve, acompanhado de uma jovem muito bonita que olhava a senhora na porta com olhos surpresos e com alegria.


Naquele fim de tarde e noite, a senhora não teve nenhuma das respostas que procurava, mas também não sentiu falta delas. Aqueles momentos foram somente de prazer, raros nessa vida de incongruência em que fingimos ser adultos felizes, em que ela teve a companhia de um amor que não envelheceu e de sua jovem filha cheia de sonhos, tomou chocolate quente à moda de sua mãe e viu uma história suspensa em seus dois pontos, ganhar reticências...

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Caminhantes e aprendizes


Ontem incuti de aprender a tocar a música "Come away with me", da Norah Jones. E eis que isso foi o suficiente para me fazer pensar.

Talvez toda a minha existência, quiçá a de todo o ser humano, seja permeada por algumas atitudes que devem nos atravessar. Penso que vive mais e melhor aquele que aceita sua condição de caminhante e de aprendiz.

Caminhar não só pelas ruas da cidade, mas caminhar pelo mundo, caminhar pelas idéias, caminhar pelos sonhos, caminhar pela vida, caminhar pela História, caminhar para frente!
Não digo que aqueles que foram privados de caminhar com as próprias pernas, estejam dispensados desta condição. Sempre é possível caminhar, seja com a ajuda de cadeiras de rodas, da internet ou da literatura. Ou de ambas! O importante, de fato, é sair do lugar, é se mexer, é fazer uso da excepcional dinamicidade dos dias, das horas, do corpo e eu diria, principalmente, do pensamento. 

Benditos aqueles que privados do direito de ir e vir físicos, não esmaecem perante a dificuldade e fazem da capacidade de imaginar o seu mais poderoso instrumento, sua arma secreta, seu poder infalível.

Ademais, somos mais felizes quando percebemos quão pequenos somos, mas quão poderosos também podemos nos tornar quando nos reconhecemos aprendizes. A força de um aprendiz consiste exatamente em fazer de seus erros sua maior oportunidade de crescer e de que o mundo inteiro é seu lugar, que todas as pessoas são professores e que não há nada que não se possa aprender.

Eu já aprendi bastante coisa desde que cheguei a este mundo, mas nada se compara ao que ainda tenho que aprender. Já sei me comunicar por palavras ditas e escritas, por olhares, por gestos. Sei compreender a linguagem dos meus semelhesntes mais próximos. Já sei que existem palavras mágicas, mas a mais poderosa é uma chamada "perdão", ainda que a "gratidão" brilhe muito perto de algumas outras. Aprendi que tudo nesse mundo tem um sentido, alguns mais fáceis de compreender, outros não. O sorriso tem sentido e a lágrima também. A alegria tem um sentido, mas a ira também.

Ao mesmo tempo, existem algumas outras coisas que demorei mais a entender. O que é justiça, o que é solidariedade, o que é lealdade, o que é ironia, o que é metafísica...

E sei reconhecer que, da infinidade de coisas que tenho para aprender, algumas serão mais dolorosas, como ter que lidar com a solidão, com a saudade, com a ausência de certezas, com a noite, com a dúvida, com os filhos, com os fantasmas, com a ansiedade de saber se no futuro vai dar tudo certo.

Todos os sinais apontam para um caminho longo... (Se Deus quiser e eu fizer tudo direitinho!)

Mas sabe uma das coisas mais bonitas que estou aprendendo atualmente? Nunca estamos sozinhos.Por mais que estejamos distantes das pessoas queridas, seus ensinamentos, as experiências que vivemos juntos, as imagens guardadas em nossa memória, fazem que não estejamos sós.
Não que ficar sozinho seja danoso. Pelo contrário, às vezes é essencial. Mas é uma solidão diferente. Ela é escolhida, é uma opção que pode ser modificada assim que for mais uma vez necessário. E, sem querer me contradizer, sozinhos de verdade não estamos. Vivemos rodeados de manifestações humanas. Mas o isolamento instaura um silêncio maior, em que é possível ouvir nossos próprios pensamentos.

Mais um produto da aprendizagem!

No final das contas a única coisa que importa realmente é se conseguimos fazer jus a essas duas condições. Se caminhamos bastante e se aprendemos ao longo do caminho.

Tirando proveito da companhia, "come away with me"... 

terça-feira, 13 de julho de 2010

Uma carta ao futuro amor

Querido amor do futuro,


Você existe mesmo? É que fico com o coração meio apertado quando penso que a minha ansiedade pela sensação de completude pode ser totalmente frustrada... O que eu faria se você não tiver forma física? Se não estiver personificado?

Quase consigo me acostumar com a idéia de que a "imperfeição de ser metade" (frase de Habel Dÿ Anjos) é que me fará encontrar sentido na odisséia constante em que sigo. Apenas por ser metade é que eu posso acreditar na possibilidade de existir alguém com o mesmo propósito que eu.

Desse modo, se por acaso - e apenas por acaso - você acabar lendo esse post, quero aproveitar para te deixar uma mesagem: tenha calma, tenha paciência. Aqui, onde estou, venho me preparando para o encontro fatídico que dará outro rumo a nossas vidas. Ou não.

Não é que eu acredite estar pronta um dia. Estamos em constante mutação e eu acredito que estou em plena metamorfose nesse instante. Mas algumas coisas devem ser arrumadas antes de saber quem é você.

Por isso tenha a calma que eu ainda não tenho.

Por isso, ansiosamente espero.

E se no dia em que eu topar com você na banca de revista, naquele dia em que eu for ao cinema sozinha, quando eu te pedir uma dança, me reconheça, pois eu vou te reconhecer. Eu acho...

Depois de te escrever, aquieto minha alma. Ufa! Agora, sim. Espero em paz.

Até mais!

terça-feira, 1 de junho de 2010

Replanejamento político

Em ano de eleição, vejo-me cutucada a falar sobre isso aqui no blog, porque estar atento às candidaturas, propostas e perfis também é cuidar do que se ama. É também ser "responsável pela rosa"...

Eu, que nunca fui uma pessoa que se importasse tanto assim com a política, hoje me sinto responsável por cuidar de quem irá cuidar, de um outro ponto de vista, do nosso país. Alguém que terá poderes que nós não teremos, mas que deverá tomar as decisões que lhe cabem, respaldando-se no que será melhor para o povo por ele representado.

A política, ao meu ver, perdeu muito de seu sentido original. Lá na Grécia Clássica (tempão, hein!) com o surgimento da pólis, surge também a preocupação em escolher pessoas que a administrariam bem. Platão defendia a ocupação desses cargos administrativos por filósofos e reis, que usariam a "alma racional" para bem fazê-lo. 

OK, deixando um pouquinho de lado essa supervalorização da racionalidade, o princípio que regia a política na época era a que a pensava como um valor, sendo sua existência justificada pela finalidade de proporcionar uma "vida boa" (entendida naquele momento como racional, feliz e justa, própria dos homens livres).

Posso não concordar com esse enaltecimento da vida racional, mas, compreendendo a racionalidade como compreensão da realidade, consciência de sua existência em um mundo e de sua função e participação nesse mundo, a política então tinha um por quê de existir permeado de muita dignidade.

Hoje em dia "política" e "dignidade" parecem impossíveis de existir em uma mesma frase...

Ontem mesmo flagrei um pensamento passando sorrateiramente em minha mente (quase uma atenção flutuante aos meus próprios pensamentos) e senti que tive um insight tão... óbvio! É completamente injusto que todos paguem impostos, mas poucos tenham acesso à saúde, à educação, à segurança...

Vamos pensar tudo isso de uma perspectiva microorganísmica. Imagine que nós façamos parte de um povo nômade, que em um determinado momento encontra lugar propício para estabelecer acampamento. E permanecemos ali por longa data, até que algumas gerações tenham se acostumado a uma vida sedentária e abandone a vida nômade por tempo indeterminado. Ora, aos poucos nos veremos com algumas necessidades básicas e, como comunidade que somos, sentaremos para pensar juntos alguma solução. Alguém então, terá a brilhante idéia de reunirmos parte da produção de cada um (dos produtos alimentícios, do artesanato, das ervas medicinais) em uma central de distribuição. Uma pessoa será responsável pela distribuição justa dos produtos arrecadados para todos aqueles que contribuíram e aqueles que possuiam mais, contribuiriam com uma quantidade proporcional para atender àqueles membros da comunidade que não podiam se cuidar sozinhos (os membros muito jovens, os mais velhos e os portadores de alguma doença).

Porém, esse responsável começa a pensar que se tirasse um pouquinho a mais para a família dele, ninguém perceberia. Mas todo mundo percebeu e daquele momento em diante, todo mundo queria ocupar o cargo de responsável pela distribuição das reservas para tirar um pouquinho para si.


Se reconheceu nessa comunidade? Quando será que nós passamos a não tomarmos conta de nossa própria vida em detrimento das vontades deste responsável (que hoje não é mais uma pessoa, mas um sistema enorme e pesado)??

O fato é que todo esse processo levou a algo de proporções tão grandes que nós perdemos a visão do macro, da forma ampliada do problema. Nos preocupamos com os nossos impostos, nossas contas, nossa casa, nossa saúde, mas perdemos a noção de comunidade! Isso porque não conseguimos ver nossa contribuição aplicada. Sei que pago impostos absurdos, mas minha rua é cheia de buracos, os postes há anos não vêem lâmpadas inteiras, o posto de saúde nunca tem atendimento adequado, a escola não é mais lugar de gente que quer passar o seu conhecimento adiante! Todo mundo tem que saber de tudo, e no final das contas saímos da escola sem saber de nada, como meros "copiadores" - como diria sabiamente a Estamira.

E a universidade?? Os impostos pagos não garantem que você poderá ter acesso ao Ensino Superior, porque não há número suficiente de vagas, não há número suficiente de universidades para os que gostariam, então opta-se por um processo de seleção que, em minha opinião, será sempre falho, pois nunca conseguiremos avaliar de maneira correta e completa alguém cujo desenvolvimento desconhecemos.

Na pequena comunidade sabíamos de quem cobrar: íamos direto ao responsável e toda a comunidade poderia se reunir para cobrar que sua contribuição fosse dividida de maneira a garantir a equidade! Mas um sistema tão grande quanto o que construímos tem autonomia suficiente para criar todas as barreiras burocráticas possíveis. Jamais uma pessoa como eu, sem importância política alguma, poderia bater à porta do gabinete presidencial e dizer: "Escuta, você acha mesmo justo que seus ministros ganhem horrores, enquanto ali embaixo - pelo amor de Deus, é só descer as escadas! - existem pessoas definhando de fome? Fome! Necessidade de arroz! De feijão! De bife acebolado! De alface fresquinha! De rodelas de tomate! De letras! De música! De dignidade!"
Não... "Eles", os responsáveis pela distribuição, criaram a burocracia. Os processos. Procedimentos eficientes em protegê-los de todo e qualquer contato com a comunidade que grita - ou não - a injustiça que presenciam há séculos.


Minha sugestão: auto-gestão! Criemos novamente pequenas comunidades auto-suficientes. Não pagaremos impostos, visto que não utilizaremos quaisquer rescursos públicos. Educaremos nossas crianças com o que for necessário para se viver na comunidade, plantaremos aquilo que gostamos de comer, cuidaremos de nossos doentes com o que a natureza tem de melhor a nos oferecer. Construiremos nossa moradia e não teremos que pagá-la infinitamente, correndo o risco de perdê-la caso o pagamento do imposto não seja efetivado. Não precisaremos de carros, pois tudo será muito perto! No máximo uma bicicleta. Desse modo, para quê combustível?

Só não acho justo que não tenhamos acesso às conquistas tecnológicas de toda humanidade, pois elas custariam muito caro a quem não possui moeda de troca. (Sim, porque não teríamos dinheiro.) Mas talvez esse seja o preço a ser pago pela dignidade da vida de nossa pequena comunidade. Dignidade que será preservada pela política da comunidade e, dessa vez, não será negligenciada.


P.S.: Para o verdadeiro êxito dessa suposta comunidade, muitas outras coisas teriam que ser pensadas e esse texto não caberia mais em um blog, pois seria um grande projeto. Mas ela é possível! Porém, logo teríamos que pensar estratégias de defesa, pois o resto do mundo iria, com certeza, querer nos atacar. Nós, uma ameaça ao poder vigente, cuja única pretensão é a de querer viver em paz.