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sábado, 12 de fevereiro de 2011

"Só a bailarina que não tem..."



Metáfora perfeita para a menina perfeita, a bailarina clássica me parece ter trejeitos sempre doces, passos sempre exatos, traços sempre delicados... Em suas roupas esvoaçantes e seu aspecto esguio, são capazes de esconder todo o esforço necessário para se fazer um salto impecável e os pés massacrados por horas à fio de ensaios. De alguma forma, no palco só se vê a sua glória e não seus sacrifícios.

Falo hoje da bailarina da forma mais convencional, da bailarina que dança o Lago dos Cisnes e que ficou imortalizada na memória popular como a leveza encarnada. E para ilustrar o que venho tratar aqui no blog me vem iluminar a  lembrança a canção Ciranda da Bailarina, do Chico Buarque e do Edu Lobos, em contraponto ao filme Cisne Negro, indicado a 5 prêmios da grande celebração cinematográfica de Hollywood.

No filme, a bailarina "perfeita" se vê perseguida por ilusões e fantasmas que entendemos aos poucos, ao longo do filme, quem são. Uma mãe extremamente castradora e enclausurante (se é que esse termo existe), faz com que a jovem permaneça nos seus traços infantis, enquanto uma mulher vai ganhando força dentro dela e fazendo pressão para sair e ganhar forma na vida, no seu tempo que é devido.

Na canção da dupla Buarque e Lobos, vemos uma bailarina como estereótipo da "garotinha meiga" e perfeita que não tem "pereba, marca de bexiga ou vacina", "nem unha encardida, nem dente com comida, nem casca de ferida, ela não tem". O problema é que "todo mundo tem um primeiro namorado", "problema da família" e todo mundo faz pecado, só a bailarina que não. O problema é que tudo isso é muitíssimo normal (e atire a primeira pedra quem não tem calcinha ou cueca meio velha, com elástico frouxo!!)

A fantasia da perfeição, da beleza pueril, da inocência eterna é extremamente perigosa, pois pode ser um tremendo impecilho ao crescimento, ao amadurecimento. A ciranda da bailarina canta isso de uma forma singela, até mesmo infantil. Já o filme, trata de quão patológica a questão pode se tornar quando o caminho  do amadurecimento não pode seguir seu curso natural.

Aqui no meu bairro toda vez que chove, a enxurrada traça o mesmo caminho: o que era feito pelo rio que passava por ali, antes do asfaltamento das ruas e das casas tomarem conta do terreno. Algumas questões da nossa vida, que nos é impelida justamente porque é da espécie, têm a mesma força. Não adianta tentar mudar o curso, porque ele sempre tentará uma saída que o leve de volta ao ponto original.

Em Cisne Negro podemos ver a força que este tem dentro da bailarina, camuflado por um fraco Cisne Branco, que teve seu momento, mas que já era para ter saído da vida dessa garota há algum tempo. Escondido sob camadas de boleros cor-de-rosa, ursinhos de pelúcia, um tratamento infantil por parte da mãe, uma hora ele "transbordou", como a enxurrada no meu bairro.

Resolvi escrever sobre isso porque vejo tudo isso como uma situação até mesmo frequente. Pra falar a verdade, eu quase fui uma dessas bailarinas. O caminho a mim prescrito pelo Fado me mandou ao curso natural e eu vejo o quanto a Síndrome da Perfeição pode levar à perca da saúde mental e física.



Em nome da juventude, da beleza, da moral,  muitas pessoas já viveram enclausuradas dentro de si mesmas, experimentando a cada dia uma luta devassa contra a natureza de seus corpos, de suas mentes, de seu crescimento, de sua sexualidade. E o filme retrata bem como pode ser dolorosa essa vivência. Como se o corpo fosse um invólucro infame que nos impedisse de sermos congruentes com o que somos de verdade.



No final das contas, quem melhor conta é aquele e aquela que confessa que faz pecado logo assim que a missa termina, que "tem sujo atrás da orelha, bigode de groselha e calcinha um pouco velha", afinal quem não tem? Só a "bailarina"...


8 comentários:

Jaqueline Adriany de frança disse...

Gostei bastante do texto, Ciranda da Bailarina é uma musica que gosto muito, acho muito inteligente.E a analogia que fez ficou mto legal!
Vou assistir esse filme que já ouvir falar mto bem...
Abs.

Glaciely disse...

Seu texto é mto interesante... Assim cmo tudo q sai dessa cabecinha...rsrsr. Assim como um dia te disse... Somos todos "possiveis de mudança" basta querermos mudar... Não se muda o curso de um rio, porém é possivel conviver com sua voracidade....rs Bjim..

Erick Kreps disse...

Por algum motivo me lembrei do Guerra nas Estrelas enquanto lia. Acho que foi bem na parte do Cisne Negro camuflado. No filme A Vingança do Sith, Hayden Christensen que interpretava o Anakin Skywalker é o cara que tinha um Lado Negro. Casado secretamente com Padmé(ótimamente interpretado por Natalie Portman que é a protagonista de Cisne Negro!!), Anakin quer tentar de tudo para impedir a morte certa da esposa e aos poucos um rancor misturado com confusão vai crescendo nele, até que explode e ele sai matando todo mundo e "sem querer querendo" quase mata a esposa, que estava grávida de gêmeos.
Anakin é derrotado por seu mestre Obi-Wan Kenobi, mas permanece vivo graças à Força. Ele enfim é resgatado e se torna Darth Vader, o mais poderoso capanga do Imperador Palpatine.
Nesse filme vemos que o Lado Negro (ou Cisne Negro no caso da Natalie Portman, hehe) se apoderou de Anakin e só vai largá-lo quando ele salva seu filho rebelde da morte certa, mais de 20 anos depois (ou no filme 6 da saga, O Retorno de Jedi).
Não espero que Darth Vader seja uma bailarina, mas enquanto Anakin ele era tido como "o escolhido" e sempre tinha era pressionado para ser perfeito, ao mesmo tempo que era reprimido para engolir seu orgulho. Seu Lado Negro era mais poderoso e o levou a "perca da saúde mental e física". Literalmente.
Nesse contexto podemos afirmar então que Darth Vader é o Cisne Negro da bailarina Anakin. É muito gay falar isso, mas a metáfora se encaixa perfeitamente! E enquanto bailarina eu acho que ele tinha sim uma cueca ou uma "ceroula" com o elástico frouxo, mas enquanto Cisne Negro eu duvido muito, por razões óbvias de "montagem".

ROZANGELA disse...

Infelizmente, a sociedade nos impõe um padrão de perfeição que além de absurdo, acaba sendo muito castrador.
Por querermos ser o que esperam que sejamos, acabamos deixando de ser (e saber) quem realmente somos.
Refletindo sobre o que você escreveu acabei me lembrando do livro "admirável mundo novo", de Aldous Huxley. Nesse livro o autor nos faz refletir sobre os caminhos que a humanidade anda seguindo e os valores que estamos adotando. Na obra o autor narra um hipotético futuro, no qual a perfeição estética e comportamental, que tanto se valoriza atualmente, é atingida, mas tem como preço a total desumanização e perda da individualização. Pois afinal, o que realmente nos faz "indivíduos" são as nossas peculiaridades, nossos "cisnes negros", nossos pecados, nossas sujeirinhas, querer escondê-los ou abafá-los só nos traz meleficíos.
Como você mesma citou no texto, abafar as próprias tendências em prol desse "complexo de perfeição" atrapalha e muito o amadurecimento, no próprio "admiravel mundo novo" é possível perceber isso, lá (ou mesmo aqui) as pessoas até tem um bom desenvolvimento intelectual, mas são verdadeiras crianças quanto as emoções.
Entender que a perfeição é desumana e inatingível já é um bom primeiro passo.

Milady Oliveira disse...

Comentário curto: adooooro meus comentadores! Eles escrevem textos melhores que os meus! Obrigada, galera, pela dedicação em lê-los e em escrever suas reflexões!

Bjo

Mel disse...

adoreiii!! lembrei-me de um projeto que desenvolvemos e o texto "ciranda da bailarina" de Chico Buarque e tbém com a leitura do livro trabalhamos sonho e realidade... o que as crianças sonhavam em ser.... foi magnífico

Mel disse...

adoreiii!! lembrei-me de um projeto que desenvolvemos e o texto "ciranda da bailarina" de Chico Buarque e tbém com a leitura do livro trabalhamos sonho e realidade... o que as crianças sonhavam em ser.... foi magnífico

os pensadores jacke disse...

Bom, quando li este texto, não sei o "porque" mas lembrei da frase do nosso querido poeta Manoel de Barros: "Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito."