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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Em construção...

Estava aqui pensando com os meus botões... Quem é o homem? Dentre todas as coisas que já pensei sobre isso e que vive mudando conforme a época e as coisas que tenho lido, uma resposta têm me vindo à mente com certa frequência: um ser social. A gente costuma ouvir isso quase como uma lavagem cerebral no Ensino Médio, mas a verdade é que isso tem uma correlação com a realidade observada que me faz parar pra pensar na dimensão de ser um "ser social".

Você consegue se imaginar sem os grupos do qual faz parte? Quando te perguntam quem é você, isso não inclui ser filho de alguém, gostar de determinadas coisas que muito provavelmente muitas outras pessoas também gostem, que estuda em determinada escola ou universidade ou trabalha em um certo lugar? Mesmo que você seja autônomo, você não vende seu produto para determinada clientela? Você não nasceu na mesma cidade que muitos outros já nasceram? Não leu o mesmo livro que muitas ou poucas pessoas já leram? Não gosta de músicas que uma legião de outros fãs também gostam?

Pois bem. Parei para pensar em uma só dimensão que fosse estritamente individual e sabe o que achei?? Nada. Absolutamente nada. Nenhuma crença, nenhum desejo, nenhum objeto. O que significa então ser único? Quando a raposa diz ao Pequeno Príncipe que ele se tornou único para ela, a partir do momento em que a cativou, o que isso significava para ela? Creio que ela dizia respeito a um sentimento de individualidade.
Sobre isso tenho algo a declarar.

Essa sensação de ser alguém único no mundo, de pensar coisas que ninguém jamais pensou, de poder viver à mercê dos outros, de achar que é capaz de viver sozinho e de que não precisa de ninguém é uma sensação produzida. Perguntem por quem e terá uma resposta nada saborosa. Pelos interessados na individualidade! Em quem se interessa pelo fato de todo mundo acreditar que dá pra viver sozinho e que no fundo só o que é meu me importa. Caros leitores, será que não é por isso que a luta pelo que é público (escola, sistema de saúde, praças, eventos...) não gera comoção social? Será? Será??

Muitos "alguéns" fizeram de tudo para que acreditemos que é possível viver à margem dos problemas coletivos. Não, não é assim porque o ser humano é egoísta em sua essência. Eu, pelo menos, não acredito nisso. Acho que tudo o que somos é construção. Se não fosse assim, como alguém poderia ter a ousadia de propor mudanças?

E se tudo é construído, a individualidade também é. A coletividade também é. As representações sobre o mundo também são. E é possível desconstruir tudo também. Se estamos em plena crise, há a grande possibilidade de acabarmos com tudo ou de reformularmos tudo.

Ser social é uma questão que atravessa um milhão de outras questões que nos afligem nesse exato momento. Se teremos água em abundância nas próximas décadas, se teremos segurança para sair de casa, se há solução para a educação e a saúde pública, tudo isso depende de sairmos desse casulo construído pelo capitalismo (sim, ó grande vilão - também construído) e nos movermos rumo ao social.

Vocês podem me questionar sobre o papel da subjetividade e do papel do homem enquanto indivíduo. Eu digo que ela tem a função fundamental de por-se a caminhar e pensar e escolher, mas que também está superestimada. Adivinhem por quê?? A resposta para quase tudo na psicologia caminha pelos rumos obscuros da subjetividade, daquilo que nos é intrínseco. Sempre foi um caminho escorregadio e creio que será assim sempre. (Ou isso também é construído?) Mas se a psicologia enquanto ciência se firmou sobre esses moldes é porque ela também foi constituída em determinado contexto histórico em que se necessitava de uma ciência que explicasse esses incríveis fenômenos que aconteciam com determinadas pessoas e que "nada tinham a ver" com aquilo que era compartilhado socialmente... Essa nova ciência, ávida por corresponder à demanda que suscitou seu surgimento, encontrará explicações. Às vezes torpes, às vezes assertivas, mas sempre dentro de um contexto, um zeitgeist, uma episteme que tornasse possíveis as suas descobertas.

Bom, não pretendo aqui defender a primazia do social, mas sim a via de mão dupla. Sociedade individualista também foi construída, por essa sociedade composta de diversas subjetividades, que por sua vez nasceram da construção social, que... Enfim, já viram que essa é uma bola de neve, né? Caímos no velho "paradoxo Tostines": Tostines é fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é fresquinho?

No entanto, fato é que, já que tudo é construído por nós (sociedade e conjunto de subjetividades) tudo está ainda por fazer. A realidade ainda está para ser formulada, porque - imagine só! - o futuro não existe até que você o faça. Sugiro que tomemos nossas subjetividades (tal qual pegamos um cachorrinho - "Vem subjetividade, vem!"), nos coloquemos a pensar em quem somos de verdade (ser social ou ser individual, apartado do restante das pessoas. Aliás, se você não partilha do mundo das outras pessoas, de que espécie você é?) e propormos um chá da tarde com a humanidade, para pensarmos seriamente no que vamos fazer nos próximos 2000 anos ou simplesmente depois de amanhã, depois que as frutas madurarem...




3 comentários:

Max Minato disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Max Minato disse...

Há um tempo comecei a ler seus post, e somente hoje, tive a vontade de comentar.

Adorei a sua forma de pensar e a forma de se expressar, desde o inicio já havia me simpatizado com seu lema : "Para todos aqueles que acreditam na responsabilidade de cuidar do que se ama."

Eu acredito muito nisso!! Mas para mim isso tem sido difícil, porque não basta querer fazê-lo, mas o que se ama também tem que querer ser cuidado... Essa é a parte difícil.

Nieztsche dizia que não existe altruísmo por altruísmo, o homem é egoísta e com isso, ele tenderia a não ser um "ser social"... mas você deixou muito claro que Nieztsche se mostra equivocado... e eu concordo plenamente com sua argumentação.

Continue postando suas idéias, porque NÓS temos sede pela argumentação e pela incansável busca das respostas para nossas inquietações.

Um Abração.

Lara dos Anjos disse...

Que lindo! Essa sua teoria você me contou, e eu acredito nela. Nunca tinha pensado à respeito, mas acho uma importante forma de pensar sobre nossos conflitos existenciais que, na maioria das vezes, nos parecem tão únicos e tão difíceis de suportar...
Beijo!! :)