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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um conto sobre vinte anos, chocolate e velho amor

Uma tarde de agosto. Era inverno no hemisfério sul do mundo, uma senhora de cabelos bem brancos, calças de algodão tingidas de azul e blusa branca bem leve e confortável, preparava um doce chocolate quente. O bastante para três.

Tinha uma expressão leve no rosto, mas de alguma forma era possível perceber o ar de satisfação. Faltavam apenas poucos minutos para a chegada da visita, se esta não se atrasasse. 

Quanto tempo havia passado desde aquele dia... O último em que se lembra de ter visto aquele homem. Lembra-se como se a cena houvesse se passado no dia anterior: uma praça com tulipas vermelhas, rosas e brancas, um mar em degradê, brisa fresca abraçando o corpo e uma espera. Ao longe, avista o homem no auge de seus trinta anos, caminhando ao seu encontro. Ele senta ao seu lado, pega em sua mão, sorri e a olha de maneira profunda como nunca antes havia feito. Ela não sabia. Seria a última vez em muitos anos.


Vinte anos depois, numa manhã de calor, o carteiro deixa em sua porta uma carta com aquela letra confundível: letra de homem. Uma carta profunda que contava dos acontecimentos mais relevantes desses vinte anos distantes: seu casamento, suas conquistas profissionais, o nascimento de sua filha. Almejava um encontro. Em nome nos velhos tempos. E levaria companhia.


O que se pode pensar de um amor que foi embora? Que simplesmente se foi e que reaparece vinte anos depois querendo mostrar-se diante de você? Não importa o que fariam as outras pessoas, ela o receberia. Afinal era um amor, dos mais belos que atravessou sua vida. Não o maior - teve a felicidade de se casar com aquele que acompanhou quinze anos de sua vida e que se foi em virtude de um grave acidente (que de virtuoso não tinha nada...). Mas era ainda um belo amor, que deixou marcas e saudade.


Tentava se lembrar da história. O começo, o meio e o não-fim. Depois de vinte anos, só ficaram as boas lembranças. A única que havia sido ruim teve fim com o envio desta carta: agora, sim, poderíamos ter um fim verdadeiro, concreto para esta história. Finalmente ela saberia o que aconteceu. Ou não.


Batidas à porta. Um homem por volta de seus cinquenta anos de porte fidalgo e com cabelo despenteado, como sempre o teve, acompanhado de uma jovem muito bonita que olhava a senhora na porta com olhos surpresos e com alegria.


Naquele fim de tarde e noite, a senhora não teve nenhuma das respostas que procurava, mas também não sentiu falta delas. Aqueles momentos foram somente de prazer, raros nessa vida de incongruência em que fingimos ser adultos felizes, em que ela teve a companhia de um amor que não envelheceu e de sua jovem filha cheia de sonhos, tomou chocolate quente à moda de sua mãe e viu uma história suspensa em seus dois pontos, ganhar reticências...

6 comentários:

Lorrainíssima disse...

Me lembra um pouco uma das histórias da Jane Austin =)

Milady Oliveira disse...

Não conheço... Faça o favor de nos apresentar!

;*

Renato Snowareski disse...

Continuo acompanhando seu blog, principalmente as últimas 3 postagem. Gostaria que soubesse que aprecio muito sua maneira de tratar o amor. Bem como outros sentimentos humanos, como a solidão.

São poucos o que ainda se importam com tais palavras que li. Principalmente a carta ao futuro amor.

Parabéns, sublime...

Milady Oliveira disse...

Huum... Li sublime como adjetivo e verbo.

Renato Snowareski disse...

então posso considerar minha mensagem corretamente entendida...

uma proposta... Vamos escrever juntos um dia um texto sobre qualquer coisa?

"com a sua capacidade de sublimar..."

Milady Oliveira disse...

Por ter uma séria dificuldade em escrever em conjunto, eu topo o desafio.